Espelhamento
Myriam Machado Baker
AdvCBP, BAT, PaRama CBP e Instrutora de FreeFall

Para muitas pessoas a coisa mais assustadora do FreeFall pode ser olhar-se nu em um espelho. Eu decidi explorar algumas ideias sobre “Espelhamento” e integrar meu próprio processo de reflexões e experiências como aluna de FreeFall (sempre uma estudante!) e Instrutora em treinamento.

Meu convite a você, que vai ler este artigo, é que flua através dos conceitos que eu encontrei ao longo de meus estudos. Aqui e ali irei lançar algumas perguntas. Não que elas devam ser respondidas. São apenas perguntas.

E aqui estão as primeiras: Você tem vergonha de se olhar nu? Você sente vergonha se outras pessoas olham para você enquanto está nu?

A neurosciência reconhece que toda a informação sensorial que recebemos chega a nós pelos cinco sentidos, mas antes de ser processada em áreas específicas do cérebro a informação é filtrada por nossas crenças, atitudes, expectativas e apegos, de forma que não experimentamos o “mundo real” como ele é. O que experimentamos é o que nossos filtros (crenças, atitudes, expectativas, condicionamentos etc) permitem que percebamos. Portanto, quando olhamos no “espelho” de nossas interações, tanto com outros quanto conosco, ainda estamos vendo através dos filtros que existem em nossas mentes consciente e subconsciente.

Tenho duas contemplações a respeito deste conceito: primeiro, não deveríamos levar tudo tão a sério porque não estamos olhando para a verdadeira realidade de qualquer forma. Segundo, isso significa que para podermos “enxergar claramente” precisamos nos livrar de todos os nossos filtros? Isso é possível?

O Dr. Alexander Lowen (a Linguagem do Corpo) ensina que nosso corpo espelha nosso caráter. Portanto nosso corpo pode nos dar dicas de nossos distúrbios emocionais. O corpo também pode dar dicas sobre como curar esses distúrbios.

Quando eu respiro dentro da consciência no exercício do espelho, eu experimento como certas emoções se tornaram rigidez muscular e inflexibilidade em meu corpo.

O conceito de Consciência de Separação X Individuação é explicado no módulo Princípios da Consciência e vivenciado nas aulas de BreakThrough e FreeFall.

Nós nos separamos de nossa verdadeira natureza (que é pura benevolência) quando criamos expectativas (que não são alcançadas) sobre nós e os outros. Nós aprendemos a criar padrões defensivos e mecanismos de enfrentamento muito, muito cedo na vida para evitar a dor. Mas nós nos machucamos do mesmo jeito quando negamos quem realmente somos. É muito doloroso continuar tentando “encaixar” em algum lugar, de alguma forma, no mundo “lá fora”.

Quando negamos partes de nós mesmos, fragmentamos nosso ser – separamos mente, separamos corpo e separamos coração; todo o nosso ser treme e começa a se contrair em si mesmo. Parece que temos uma guerra dentro. Eu sei. Já estive nesse lugar. O sopro e fluxo da vida ficam limitados e o estresse se aloja em todos os lugares. Nós criamos todas essas armaduras e paredes seguras porque deveríamos estar em um lugar seguro mas parece mais uma câmara interna de tortura!

E o nosso corpo pode se curar dentro de uma câmara de tortura? Nossa mente consegue voar? O nosso coração consegue amar quando está em guerra dentro de nós mesmos? O nosso corpo consegue ser feliz e saudável? Todos sabemos a resposta: não, não consegue.

E de onde vem essa necessidade de sermos defensivos? Por que queremos tanto nos proteger uns dos outros? Não deveríamos estar todos conectados?

Lynn MacTaggart diz: “… o que ‘captamos’ dos outros é exatamente o que estamos enviando para os outros”. No final, talvez estejamos nos protegendo de nosso próprio eu.

Outro aspecto sobre o qual estamos sempre preocupados e que aumenta o embaraço de estarmos nus na frente de outros é o medo de “o que as pessoas vão falar sobre nós?”.

Em aulas recentes de PaRama, John Veltheim tem falado sobre o pré-cúneo, que é uma parte do cérebro, no lobo parietal superior, escondido entre os dois hemisférios cerebrais, logo acima do cingulado posterior. O pré-cúneo se relaciona com a memória episódica e a autoimagem mental. E também tem sido vinculado ao processo de autoconsciência, assim como a autopercepção reflexa, que avalia nossos traços de personalidade e os compara com os julgamentos percebidos de outras pessoas – ou o que os outros pensam sobre nós.

Quanto medo você tem do que os outros pensam sobre você? Enquanto você pensa nisso, neste exato momento, seu pré-cúneo está sendo ativado! E quão grande é o seu medo de ser julgado? Será na mesma proporção do quanto você julga os outros.

Eu já participei de algumas aulas de FreeFall e me impressiona perceber como cada vez que vou para a frente do espelho eu descubro mais sobre meus padrões de defesa; eu descubro mais sobre as paredes que eu, por conta própria, construí em volta do meu corpo e eu coração.

Cada vez que eu fico na frente do espelho consigo fazer contato mais honesto com meu Eu. A cada oportunidade na frente do espelho, talvez meu pré-cúneo esteja recebendo uma refrescante atualização!

Nos ensinamentos de Programação Neurolinguística, o espelhamento pode ser o comportamento pelo qual uma pessoa copia a outra, normalmente em interações sociais. Pode incluir imitar gestos, movimentos, liguagem corporal, tensões musuilares, expressões, tônus, movimentos dos olhos, respiração, ritmo, sotaque, atitude, escolha de palavras ou metáforas e outros aspectos da comunicação. Costuma ser observado entre casais ou amigos próximos. Eu vejo isso acontecendo o tempo todo. Eu também vejo alguns desses conceitos em ação quando fazemos o exercício do “Perdão”. Imitar a linguagem corporal de meus pais, gestos e expressões em movimento me ajudou a cessar e processar sentimentos e emoções passados aprisionados em meu corpo. Nenhuma palavra é necessária!

“Quando um leão ruge na frente de um espelho, você acha que o espelho ruge? Ou quando o leão vai embora e uma criança chega dançando, você acha que o espelho esquece completamente do leão e começa a dançar com a criança?”. Osho diz: “O espelho não faz nada, ele simplesmente reflete. Sua consciência é como um espelho. Você não vem nem vai. As coisas vem e vão. Você fica jovem, você fica velho; você está vivo, você está morto. Todos esses estados são simples reflexos de uma piscina externa de consciência. Manter a sua mente e coração neutros é a resposta para o reflexo claro.”

Mas o que realmente significa ser neutro? É estar vazio? Ou estar cheio? É se livrar de todos os nossos disfarces, nossos filtros? É apenas “fazer nada”? Apenas ser o reflexo? Isso é possível?

Na terapia Gestalt não existe tal realidade neutra, indiferente. A assimilação da vida só pode acontecer no momento presente conforme ele passa para o futuro. E a experiência nunca é um mero rearranjo de situações não resolvidas mas uma configuração, sempre nova, e sempre diferente, do que pode ser lembrado.

Da teoria quântica nós pegamos emprestado o conceito de entrelaçamento. O entrelaçamento apóia a ideia de que os relacionamentos são a característica definidora de tudo em nossos conceitos limitados de espaço e tempo. Dean Radin, em seu livro Mentes Interligadas, diz: “Os físicos agora acreditam que o entrelaçamento entre as partículas existe em todo lugar, o tempo todo, e recentemente acharam chocante a evidência de que afeta o mundo macrocósmico mais amplo no qual vivemos”.

O físico britânico David Boehm observou que o entrelaçamento se aplica ainda mais à consciência com seu fluxo constante de pensamentos, sentimentos, urgências, desejos e impulsos evanescentes.

James Oschman e neuroscientistas cognitivos trazem o conceito do campo de neurônios espelho: “Neurônios espelho são neurônios que se ativam em nosso cérebro quando testemunhamos um ato feito por outra pessoa que requer o mesmo grupo de neurônios”. Quando outra pessoa pega um copo d’água, os neurônios do nosso cérebro responsáveis por aquele movimento são ativados da mesma forma que os neurônios da pessoa que está fazendo a ação.

O neurônios espelho rastreiam o fluxo emocional, movimento e até intenções da pessoa com a qual estamos, e replica em nosso cérebro esse estado percebido ativando em nós as mesmas áreas ativas em outra pessoa.

John T. Cacioppo, Diretor do Centro e Neurosciência Cognitiva e Social da Universidade de Chicago, faz uma afirmção paralela: “(…) o status emocional de nossos principais relacionamentos tem impacto significativo em nosso padrão de atividade cardiovascular e neuroendócrina. Isto expande radicalmente o escopo da biologia e neurociência, do foco em um único corpo ou cérebro para o foco na relação entre dois ao mesmo tempo. Em poucas palavras, minha hostilidade aumenta a sua pressão arterial e o seu amor nutridor dominui a minha. Potencialmente, você e eu somos inimigos ou aliados biológicos de cada um.”

Portanto, parece que anatomicamente (e fisiologicamente) estamos programados para nos entrelaçar uns com os outros. Nós somos naturalmente programados não apenas para sermos refletidos no mundo lá fora mas também para refletir de volta todas as crenças, desejos, pensamentos e necessidades do mundo. Nós estamos programados para interagir ativamente com o mundo e uns com os outros.

Conforme ficamos mais atentos e perceptivos, podemos perceber que os flitros/disfarces/máscaras podem estar tão vivos quanto o universo inteiro. Quando não forem mais armaduras rígidas, elas podem mudar, permutar, se reformar e transformar para que nossos reflexos estejam sempre mudando no “espelho universal”.

E se formos tanto o leão quanto o espelho e a criança e a dança? E se todos esses conceitos forem apenas abordagens intelectuais de um único aspectos da vida mesma?

No Shaivismo Tântrico existe uma abertura para penetrar este “código” de diferenças e separações porque vê-se a Unidade no código. Essa doutrina também ensina que não estamos sujeitos a diferenças. Portanto não existe a necessidade de nos defendermos.

No Rajanaka Tantra, nós afirmamos com felicidade verdadeira:
– Eu não sou você!
– Eu sou algo como você!
– Eu não sou nada além de você!

Pessoalmente eu gosto desta visão que abarca todos os paradoxos. Não existe problema a ser resolvido. Não temos que limpar nosso disfarces. Não temos que não ser ou ser isto ou aquilo. Não temos nem que ter um propósito ou um significado. No exercício do Espelho, eu simplesmente faço contato com meus próprios olhos e me amo novamente, seja o que for.

E para mim este é o principal convite do curso de FreeFall: a abrir meus olhos e ser capaz de ver claramente tudo o que eu sou e me apaixonar novamente.

A vida vai se iluminando conforme a vemos. Quanto mais de luz você ainda quer ver? Esse vai ser o tanto que você vai receber da Vida.

O espelho e o reflexo, o professor e o aluno, o observador e o observado, o cliente e o terapeuta, o amante e o amado, são sempre posições intercambiáveis e trocando informações em uma dança viva e recursiva de entrelaçamento.

O Universo oferece infinitos reflexos dos lados de fora e de dentro. Quantos reflexos você pode dar e receber? Quanto de Vida você gostaria de vivenciar?

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